A história secreta do café: Cafeína não te dá energia.

Cafeína não te dá energia. Esta é a verdadeira e fantástica história da sua vinda para as Américas.

 

Trecho do livro O triunfo das sementes: Como grãos, nozes e amêndoas conquistaram o reino vegetal e deram forma à história humana.

“Se eu não puder tomar minha xícara de café três vezes ao dia, então para meu tormento, eu irei murchar como um pedaço de bode assado.”

Johann Sebastian Bach e Christian Friedrich Henricci, Cantata do café.

Coffee intake linked to reduced risk of MS - Medical News Today

No ano de 1723, um navio mercante francês estava parado em uma calmaria, por um mês ele seguiu com as correntes, com suas velas soltas e balançando, esperando por uma brisa mais forte. Mais de duzentos anos se passaram desde que Colombo fez a sua viagem, e agora a viagem transatlântica é uma questão de curso, mas às vezes o destino das viagens ainda dependia das sementes. Por acaso este navio já tinha passado por dificuldades durante a viagem, conseguindo ultrapassar uma tempestade mortal em Gibraltar e quase sendo capturado por piratas Tunisianos. Agora estavam presos na zona equatorial chamada de “calmarias”, o barco estava com tão pouca água potável que o capitão tinha instituído um racionamento de água bem restrito, tanto para a tripulação quanto para os passageiros. Um cavalheiro se sentia especialmente com sede, já que dividia sua já pequena parte com um delicado arbusto tropical.

“Não faz diferença comentar os cuidados infinitos que tive de ter com aquela planta delicada”, ele escreveu, muito depois que os ventos voltaram a soprar e ele Haia conseguido desembarcar na ilha caribenha da Martinica, depois também das descendentes desta primeira plantinha mudarem os rumos econômicos da América central e do Sul. Esta planta, claro, era o café e como um jovem oficial naval chamado Gabriel-Mathieu De Clieu colocou suas mãos nela mantêm-se como um assunto para debates.

BREAKING NEWS: Researchers Track Down Gabriel de Clieu's Coffee ...

Em uma versão da história, De Clieu e mais alguns amigos mascarados invadiram uma estufa em Paris, roubaram a muda e fugiram. A maioria dos historiadores olham esta sequência com muita suspeita, embora não discutam que exista um ponto verdadeiro nela. A única muda de café em Paris naquela época estava no Jardim Royal des plantes. Era um espécime jovem e saudável, dada como presente ao rei Luís XIV pela cidade de Amsterdam. De Clieu descreveu a sua muda como pequena “não maior do que uma muda de roseira”, o que pode se dizer que tenha sido uma muda ou ter nascido de uma semente da árvore real. Os jardineiros reais tentavam introduzi-la como uma planta exótica, mas não devem ter percebido o grande potencial econômico. Por ser muito viajado, De Clieu sabia que as pessoas não consideravam mais o café apenas uma novidade estrangeira, uma bebida exótica apreciada pelos turcos e árabes. Ele estava se tornando algo de consumo diário, de Londres à Viena, e também nas colônias, consumido não são nas cafeterias, mas também nas casas das pessoas. As plantações holandesas em Java dominavam o mercado até então, de forma tão poderosa que a palavra Java poderia se tornar sinônimo da própria bebida. Trazendo o café para a Martinica, onde possuía uma grande fazenda, ele prometeu quebrar o monopólio holandês, apoiar o império francês e fazer um excelente lucro no caminho.

“Assim que cheguei a Martinica, eu plantei o precioso arbusto, a quem eu tinha ficado tão apegado por todos os perigos que tínhamos passado juntos” Escreveu De Clieu em outra carta. Estes perigos foram muito além de uma falta d’água. Outro passageiro tentou, por várias vezes, roubar a muda, e conseguiu com sucesso arranca-lhe um ramo. A guarda constate e a cerca de espinhos que ele precisou erguer ao seu redor para que ela crescesse, e a história de que ele não a teria conseguido por meio de roubo, mas por meio de romance, por ter seduzido “uma dama de alta classe” na corte francesa. Séculos depois, é quase impossível separar verdade de mito, mas de alguma forma as cartas de De Clieu deixam claro até onde as pessoas estava dispostas a ir por uma boa xícara de café. Quando seu precioso arbusto finalmente frutificou, toda a persistência foi muito bem paga. De Clieu dividiu as sementes e mudas com os vizinhos e em poucas décadas a Martinica podia gabar-se de ter 20 milhões de pés de café altamente produtivos.

Apesar de ser pouco celebrado hoje, De Clieu gozou de certa fama entre os bebedores de café do século XIX. Tanto que o poeta inglês Charles Lamb dedicar-lhe um poema de homenagem que começa desta maneira (em tradução livre)

Sempre que um café cheiroso bebo

No francês generoso penso,

Aquele a quem a nobre perseverança

Trouxe para a Martinica a árvore criança.

De Clieu não foi o único a trazer o café através o Atlântico, e as pessoas exageram sua atuação, mas ele fez algo realmente acertado: atendeu a demanda por café, que transformou esta pequena no segundo commodity mais rentável do mundo, perdendo apenas para o petróleo.

Cafe2U UK Blog

A ciência por trás do cafezinho.

Em uma estimativa, é possível dizer que temos de 1 a dois bilhões de pessoas enviolvidas no ritual de cultivar, beneficiar, vender, comprar e consumir café. Uma questão que raramente nos fazemos neste ritual é: Por que nos importamos?
A resposta que obtemos é : cafeína, o estimulante levemente viciante encontrado com abundância nas sementes do café. Esta pergunta, porém, acaba gerando outra: Por que o café possui cafeína?
Se você deseja agradecer a alguma coisa pela sua xícara de café, agradeça aos diversos tipos de pragas que atacam as plantas tropicais, como insetos, fungos e lesmas, pois a cafeína é produzida pela planta exatamente para se ver livre destas ameaças.
“ A cafeína é um excelente inseticida”. Trombeteou o New York Times, depois dos cientistas anunciarem os resultados das suas pesquisas. Na verdade, a cafeína é tão eficiente neste aspecto que o café não foi a única planta tropical a desenvolvê-lo. O guaraná e as sementes de cola também os possuem, além da erva mate.
Como podemos perceber, toda a vez que a cafeína aparece na natureza, os humanos estão logo atrás, transformando-as em bebidas altamente estimulantes, pois mesmo os refrigerantes de cola e guaraná, além do chá mate, acabam possuindo grande concentração de cafeína.

Coffee Science: How to Make the Best Pourover Coffee at Home ...
A cafeína é um alcaloide, e para produzi-lo, o pé de café precisa dedicar muito do precioso hidrogênio que extraem da fotossíntese. Este nitrogênio, nas outras plantas, é usado para o crescimento da mesma, ou seja, ele não pode ser desperdiçado.
Neste aspecto, a planta se comporta de forma muito inteligente, distribuindo a cafeína somente nos tecidos mais delicados, começando pelas folhas jovens, que transmitem a cafeína para as flores e frutos, que são pequenos e vermelhos, parecidos com uma cereja ou algo similar.
Enquanto estão dento do fruto, as sementes do café recebem uma quantidade poderosa de cafeína, já que além da cafeína transferida das flores, o fruto também produz uma quantidade de cafeína adicional para afastar os mais de 900 tipos de insetos que fazem do pé de café um alvo preferido.
Como nós podemos perceber, a cafeína é tão importante para a sobrevivência do pé de café quanto para fazer você acordar pela manhã.

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